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Bnei Anusim

Bereshit: sonho ou realidade?

Bereshit: sonho ou realidade?

 

David Gorodovits
Especial para FIERJ

 

Ecologia é, certamente um dos temas mais recorrente na mídia, hoje em dia. Campanhas são desenvolvidas em todos os países, buscando conscientizar a cada um da necessidade de manter a harmonia e o equilíbrio da natureza.

 

Entretanto o tema não é novo. No primeiro livro da Bíblia, quando o Eterno coloca o ser humano, por Ele criado, no Gan Eden, um quadro vívido do que deveria ser uma Ecologia Universal nos é apresentado. O homem e todos os componentes da natureza, convivendo em Paz.

 

O ser humano, entretanto, não consegue manter dentro deste Paraíso o comportamento que lhe é determinado e, em conseqüência, é obrigado a deixá-lo.

 

“Comerás o pão com o suor de teu rosto” – a sentença que é proferida após sua expulsão, é muitas vezes interpretada como um castigo terrível, mas, podemos também compreendê-la como uma nova chance, oferecida ao ser humano. Isto é, em sua infinita bondade o Eterno lhe havia doado o Jardim do Paraíso, em que ele viveria em Paz e Tranqüilidade. Agora, porém, cabe-lhe a tarefa de, com seu trabalho, com seus esforços e méritos, reencontrar ou reconstruir este mundo ideal.

 

Tinha sido colocado dentro de uma realidade que parecia um sonho. Agora lhe cabe buscar os caminhos que tornem realidade o sonho pelo qual passou a ansiar toda a humanidade.

 

Onde buscar orientação para traçar estes caminhos? Como construir as estradas que conduzam novamente o ser humano para uma era de harmonia universal?

 

Para os judeus, as respostas se encontram na Torá. No legado que, através de Moisés, foi entregue no Sinai e que tem norteado a vida de todas as gerações de nosso povo até hoje.

 

Se pretendemos encontrar indicações que nos ajudem, na caminhada através da historia, a tornar realidade este sonho, talvez possamos buscá-las nos sonhos que a própria Torá nos conta, já que vários deles permeiam a narrativa Bíblica do livro de Bereshit.

 

Alguns são interpretados na própria Torá. Entretanto, será que sua compreensão não depende, também, da época em que estamos vivendo?

 

Analisemos, por exemplo, os sonhos do Faraó.

 

Ele sonha que 7 vacas gordas são devoradas por outras 7 vacas magras, raquíticas, sem que estas pareçam ter engordado em função disto. Acorda e torna a sonhar, desta vez, com 7 espigas belas e viçosas que são devoradas por outras 7 secas e murchas sem que estas melhorem de aspecto.

 

José interpreta os sonhos e faz ver ao Faraó que 7 anos de fartura serão sucedidos por 7 anos de seca, de tal intensidade que, pareceria não ter havido anteriormente qualquer tempo de colheitas boas.

 

Talvez, nós, hoje, na Golá, após tantos sofrimentos vivenciados, possamos interpretar de forma diferente estes sonhos.

 

As 7 vacas gordas e as 7 espigas viçosas, representariam a chegada dos judeus a cada uma das terras aonde foram levados pela dispersão, após a destruição do 2o. Templo.

 

Aonde chegaram, com seu labor, sua inteligência e sua dedicação, contribuíram, trazendo desenvolvimento e progresso para a terra que os acolheu e desta forma os 7 anos de fartura.

 

De súbito, inveja, ódio sem motivo, anti-semitismo, varrem como um furacão irresistível estas terras, destruindo o que eles construíram, apagando, por vezes, até mesmo os sinais de sua presença, trazendo para os judeus sofrimentos sem conta. Seriam os 7 anos de fome.

 

O sonho se repete com símbolos diferentes, vacas e espigas, indicando que isto haveria de acontecer em vários países. E o Faraó acorda entre os dois sonhos, como para indicar que haveria períodos de calmaria em que os judeus chegariam a pensar que teria passado a época destes sofrimentos, mas infelizmente eles voltariam a ocorrer.

 

É trágica esta forma de compreensão, mas, não fiquemos apenas sob sua influencia. Continuemos buscando respostas nos outros sonhos interpretados por José.

 

Ele interpreta os sonhos do copeiro e do padeiro do Faraó. Suas interpretações se mostram verdadeiras, o padeiro é executado e o copeiro perdoado. Talvez, para nós, os dois sonhadores sejam símbolos a nos transmitir uma mensagem.

 

O produto do padeiro – o pão – tem uma aparência enganosa; em função do fermento que entra em sua composição, ele incha e fica repleto de espaços vazios. Sua bela aparência não corresponde a sua realidade.

 

Em contraste, a Matzá, que não leva fermento, é despojada, seca e se mostra exatamente como ela é; sua forma é autentica, e corresponde a sua composição. Ela não ostenta uma aparência bela, porém, enganosa.

 

Quando os judeus, em suas peregrinações pelas várias diásporas, enfrentando grandes sofrimentos, tentaram absorver, ou, às vezes, foram obrigados a absorver, valores religiosos de outros povos e desta forma se tornaram. mais aceitáveis perante eles, assim como o pão – passaram a ter uma aparência talvez agradável para os outros, mas cheia de vazios, inautêntica, irreal, afastada e diferenciada de suas tradições.

 

Quando isto aconteceu, eles, como judeus, de imediato ou após algumas gerações, desapareceram.

 

Quando, por outro lado, mesmo diante de todos os sofrimentos, eles permaneceram fiéis à integridade de sua fé, mantiveram suas tradições e as transmitiram as sucessivas gerações, se assemelhavam a Matzá, simples e despojada aos olhos de outros povos, mas autêntica e desta forma capaz de manter o judaísmo vivo através dos tempos.

 

O copeiro que é perdoado e volta a servir novamente seu rei nos faz pensar na bebida que ele prepara, isto é o vinho.

 

A definição, entre ser pão ou Matzá, era talvez determinada pela escolha de uma bebida especial – o vinho da Torá. A Torá é comparada com o vinho e quem se embriaga com ela é capaz de enfrentar todos os sofrimentos para viver de acordo com seus ensinamentos.

 

Simbolicamente, quem preferia os produtos sofisticados do padeiro, se afastava dos caminhos traçados para nós pelo Eterno e quem preferia continuar como matzá, buscando para isto o produto do copeiro, continuava a servir o Rei dos Reis, com suas ações e suas preces.

 

No percurso da historia, muitas vezes o caminho da separação era definitivo e sem volta. Outras vezes, aqueles que se apartaram de seus irmãos judeus, sentiam uma nostalgia que não sabiam explicar e que os levava a buscar um caminho de retorno, um caminho de Tshuvá, que novamente os ligava com sua fé e seu passado.

 

Poderíamos associar a imagem daqueles que percorriam os caminhos da Tshuvá, com a do colhedor de feixes, que os havia abandonado no campo e que voltava agora para buscá-los e os erguia, tornando-os visíveis e prontos para serem transportados aos depósitos.

 

Isto nos traz a mente outro sonho de José. O feixe por ele colhido está erguido e os que são colhidos por seus irmãos, inclinam-se perante ele.

 

Assim, também, para os judeus que atravessaram a história com sua plena integridade, se inclinarão, não os feixes, mas os corações, daqueles que por mais afastados que pareçam estar de suas origens, ainda têm, mesmo que tênue, uma centelha da fé que iluminou os corações de Abraão, Isaac e Jacó, centelha que os conduziu a Tshuvá.

 

E será, quando uma Tshuvá completa ocorrer e todos os feixes estiverem juntos, unidos por sua fé, que se tornará realidade o sonho que ocorreu a Jacó, quando saiu da casa de seus pais: Uma escada ligará permanentemente a terra ao céu. Por ela ascenderão as preces e Maasim Tovim de Am Israel que retornarão transformadas em bênçãos para toda a humanidade pois, a Abraão foi dito pelo Eterno: – Vai e sê uma benção para todos os povos. Os seres humanos compreenderão, então, que há um só D’us e que toda a humanidade constitui uma única e fraterna família.

 

Somente assim poderá existir plenamente a Ecologia da Alma, que conduzirá o mundo a uma época de Paz e Fraternidade, quando uma Nação não mais se levantar contra a outra, quando o lobo e o cordeiro pastarem juntos, pastoreados por uma criança e não mais se conhecer o significado da palavra Guerra.

 

Assim será alcançada a Ecologia Universal, a Harmonia perfeita, descrita como o Gan Eden, e o homem poderá voltar ao Paraíso, desta vez reconstruído com o “suor de seu rosto” e com sua plena adesão aos Ensinamentos do Eterno.

 

Possa cada um de nós, ao reler o livro de Bereshit, reencontrar a inspiração necessária, para se tornar uma parcela positiva no grande somatório, em que se constitui a totalidade das ações dos seres humanos, para que seu resultado seja uma contínua transformação do mundo, no caminho de tornar realidade, o sonho de viver num Gan Eden.

Ódio e humilhação

 

Osias Wurman

Publicado em  20 de Janeiro de 2004 no jornal O Globo, Opinião

 

Inúmeras foram as iniciativas que já entusiasmaram os amantes da paz em todo mundo no que se refere ao conflito no Oriente Médio. Esperanças foram acalentadas desde o “Acordo de Oslo” em l993, passando pelo “Mapa do Caminho”, o plano “A Voz do Povo”, emissários europeus e americanos e mais recentemente o “Acordo de Genebra”.

 

Todos tiveram um objetivo comum: a paz. Todos tiveram um obstáculo comum: o ódio.

 

Enquanto isto, preciosas vidas foram perdidas nestes 55 anos de conflitos e o abismo entre o avanço social e econômico de israelenses e o atraso dos palestinos foi aprofundando. Os mais céticos com referência ao “Acordo de Genebra” indagam por que os protagonistas, dos dois lados, não tomaram esta iniciativa quando detinham poder político para fazê-lo.

 

Apesar de a maioria da população dos dois lados ser favorável ao dialogo, qualquer ato de violência dos suicidas palestinos bem como a ampliação dos assentamentos ou o avanço do muro de separação israelense eliminam de imediato qualquer avanço conseguido.

 

Tanto os palestinos como os árabes em geral e, em especial , os seguidores do Islã, necessitam urgentemente de um líder superior que possa representar o pensamento global de mais de 1,2 bilhão de seres humanos. Falta uma autoridade única que possa realinhar os princípios éticos e morais que hoje são difusos no mundo islâmico.

 

Enquanto continuar a doutrinação dos jovens palestinos, baseada no ódio aos israelenses, qualquer esperança de uma paz duradoura será efêmera.

 

Um exemplo desta prática é a recente apresentação pela TV Al Mana - de propriedade do movimento radical fundamentalista Hezbolah do Líbano - de uma novela síria baseada no livro falso “O protocolo dos sábios de Sião”. Destila-se a forma mais letal de antijudaísmo nas populações que deveriam estar recebendo uma orientação em prol da paz e do entendimento.

 

A atual Intifada teve inicio em setembro de 2000, logo após a visita de Ariel Sharon ao Monte do Templo em Jerusalém, ato considerado como uma violação a um local sagrado do islamismo

 

Passaram-se mais de 3 anos de conflito e foram perdidas mais de 4 mil vidas com 10 mil feridos e um novo ataque teve como motivo o mesmo local. Desta vez, o pretexto para a violência foi a visita de um árabe muçulmano, chanceler do Egito , que veio a Israel em missão de paz. Ahmed Maher recebeu, na ocasião, a mais humilhante agressão a um árabe, segundo a tradição da região, quando dezenas de sapatos foram atirados em seu rosto enquanto iniciava suas orações na mesquita de Al Aqsa. Aos gritos de traidor, radicais palestinos avançaram contra o visitante que saiu carregado do local para um hospital israelense.

 

Este episódio demonstra quão cego e profundo é o ódio reinante nas massas. Os atacantes são moradores da Jerusalém Oriental , onde os mentores do “Acordo de Genebra” propõem instalar a capital do futuro Estado palestino. Fica difícil imaginar o avanço desta proposição nas atuais condições.

 

Outro obstáculo ao entendimento é o sentimento de frustração dos palestinos mais jovens que viam em Saddam Hussein o grande líder e herói da causa árabe. Aquele que de um lado agredia países árabes vizinhos, dominados por monarquias conservadoras, enquanto que do outro lançava foguetes Scud contra Israel e mandava cheques de 25 mil dólares para as famílias dos suicidas.

 

A imagem da prisão deste líder maligno foi transmitida por todas as televisões do mundo árabe e provocou um choque de humilhação e depressão nos ativistas mais rebeldes. A forma da rendição de Saddam foi absolutamente indigna e incompatível com alguém que premiava a morte de terceiros por suicídio na luta contra o inimigo.

 

Gerações deverão ser reeducadas por um novo líder pacifista que terá que surgir no mundo árabe para reencaminhar este povo que tanto contribuiu para o engrandecimento da Humanidade na Antigüidade e que agora encontra-se envolto em ódio e humilhação

Judaísmo Faz Bem e Faz o Bem

 

Jayme Blay

Publicado em 17 de Agosto de 2003 no jornal Folha de S. Paulo, Opinião

 

Entre os inúmeros valores cultuados pelo judaísmo, há o “tzedaká”, que significa justiça social

 

O que tem feito e faz a comunidade judaica em prol da sociedade brasileira? Algumas pessoas têm conhecimento, a maioria não sabe o suficiente, porque raramente são divulgadas as ações por ela empreendidas, especialmente na área social, visando levar aos mais necessitados apoio espiritual e, com maior ênfase, auxílio material imediato para minimizar a carência de uma imensa população marginalizada.

 

Dentre os inúmeros valores morais cultuados pelo judaísmo há um que se salienta. É chamado de “tzedaká”, que, traduzido para o português, significa justiça social. É palavra-chave, que guia rigorosamente os judeus, os faz pensar e se dedicar ao próximo sem diferença de etnia, cor, credo, ideologia ou status. O importante é eliminar as privações e elevá-lo à condição de cidadão com todos os privilégios e responsabilidades inerentes à sua condição de ser humano.

 

Sob um mesmo teto, representado pela Federação Israelita do Estado de São Paulo, dezenas de entidades da comunidade judaica, que reúnem muitas centenas de voluntários, dedicam-se a levar a milhares de pessoas, em várias regiões do Estado, alimentos, remédios, educação, orientação familiar, assistência a excepcionais e um sem número de outros benefícios, absolutamente imprescindíveis na atual conjuntura para, ao lado das autoridades constituídas, minorar o drama vivido por irmãos praticamente à beira do abismo.

 

Na comunidade judaica existem instituições como a Unibes (União Israelita do Bem Estar Social), várias vezes premiada por sua atuação, que possui uma creche considerada modelo, acolhe adolescentes, dá assistência psicológica a famílias necessitadas, proporciona atendimentos odontológicos e médicos, além de, diariamente, fornecer medicamentos a uma multidão de pessoas necessitadas. Também há o refeitório assistencial Ten Yad, que fornece, gratuita e diariamente, alimentos a um número incalculável de pessoas, dando ainda apoio a um dos restaurantes assistenciais “Bom Prato” do governo de SP. É igualmente importante citar o Ciam (Centro Israelita de Assistência ao Menor), que cuida especificamente de excepcionais; o Lar Golda Meir, que dá atendimento total aos idosos; o Lar das Crianças da Congregação Israelita Paulista; que abriga e educa menores; e a OAT (Oficina Abrigada do Trabalho), cuja missão é ensinar e encaminhar pessoas excepcionais a encontrar oportunidades no mercado de trabalho. O Beit Chabad desenvolve o Projeto Felicidade, destinado a crianças sem recursos, portadoras de câncer, provindas de todos os Estados do país.

 

A comunidade judaica não se limita a estes trabalhos sociais. Há muito mais, que é feito rotineiramente pelos seus voluntários. Por exemplo, de parte do Hospital Israelita Albert Einstein, atendimento médico de altíssima qualidade a milhares de famílias carentes da Favela de Paraisópolis. Além do próprio Departamento de Assistência Social da Federação Israelita, com seus programas Ajuda Alimentando, distribuindo toneladas de alimentos a mais de 20 entidades assistenciais sediadas na periferia de São Paulo e o Posto de Orientação Familiar na Favela de Paraisópolis, com cursos de reforço escolar e capacitação para centenas de pessoas carentes.

 

Finalmente, a Federação Israelita está totalmente engajada no programa Fome Zero do governo federal, ao lado da Confederação Israelita do Brasil e do Hospital Israelita Albert Einstein.

 

A Federação Israelita do Estado de São Paulo, a exemplo de muitos outros órgãos representativos da sociedade brasileira, hoje necessita, com urgência, de maiores recursos para dar continuidade ao atendimento em suas ações de “tzedaká”. Como obtê-los, a não ser através de uma campanha motivadora, que pudesse sensibilizar os membros da comunidade judaica e todas as pessoas de boa vontade? Foi para responder a essa demanda que nasceu a idéia de uma campanha especial, criada e desenvolvida só com a contribuição voluntária de dezenas de pessoas, entre as quais celebridades, publicitários e a imprensa. Seu tema não exigiu grandes discussões. Surgiu normalmente: “Judaísmo faz bem e faz o bem”. É o que exige a “tzedaká”, a justiça social, que é o norte de todo cidadão que professa o judaísmo.

 

Com satisfação podemos afirmar que a campanha esquematizada e promovida pela Fisesp está obtendo êxito sem precedentes. Está mostrando a coesão da comunidade judaica em torno de suas tradições e valores. Uma patente demonstração de que, ao ajudar ao próximo, ela está não só contribuindo para o equilíbrio da sociedade brasileira, mas, de forma objetiva, para a construção de um mundo melhor para todos os homens que o habitam. Como está escrito na Bíblia e é repetido em nossas orações, nas sinagogas: “Quando houver entre ti algum pobre, lhe abrirás a tua mão” (Deuteronômio, cap. 15)

 

Jayme Blay, 63, engenheiro, é presidente da Federação Israelita do Estado de São Paulo

Holocausto nunca mais

 

Osias Wurman

Publicado em  29 de Abril de 2003 no Jornal do Brasil, Opinião

O mundo homenageia o Dia do Holocausto. Nenhum evento, nos 3.800 anos de lutas, glórias e sofrimento do povo judeu, é comparável em dor e horror ao Holocausto que ceifou um terço da população judaica mundial dos anos 40. Foram 6 milhões de vítimas inocentes.

 

O povo alemão era considerado o mais culto da Europa e, apesar disso e respeitadas as honrosas exceções, foi capaz de cometer tamanho crime contra seus patrícios e semelhantes.

A comunidade judaico-alemã chegou a ser a mais elitizada do continente europeu e foi, também, a mais integrada na sociedade maior. Exemplo disso é o fato de mais de 100 mil judeus terem lutado no Exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Muitos receberam medalhas de bravura em combate.

O Prêmio Nobel da Paz, e sobrevivente do Holocausto, Elie Wiesel definiu de forma cristalina a intenção dos nazistas de destruir a moral, a identidade e finalmente a existência física dos judeus. São suas as palavras: ''Eles transformavam as cidades em bairros, os bairros em guetos, os guetos em casas, as casas em estábulos e os estábulos em vagões''.

Quando, em 1938, Goebbels, o terrível propagandista do governo nazista, promoveu a famigerada Noite dos Cristais, esse movimento de violência se propagou por toda a Alemanha, chegando às cidades do interior, para surpresa dos organizadores. O motivo era óbvio: o ódio aos judeus estava perfeitamente disseminado entre a maioria absoluta do povo alemão - os verdadeiros carrascos voluntários de Hitler.

A maior personalidade mundial do século XX, o judeu-alemão Albert Einstein, definiu com genialidade o sentimento da época. Em seu discurso na Universidade de Sorbonne, na França, em 1929, dizia: ''Se a minha Teoria da Relatividade estiver certa, a Alemanha dirá que sou alemão e a França irá me declarar um cidadão do mundo; caso contrário, a França dirá que sou alemão e a Alemanha dirá que sou um judeu''.

Outra personalidade de renome, o cientista Chaim Weizman, quando presidia o Congresso Sionista Mundial de 1936, resumiu com tremenda dramaticidade a indiferença mundial ao sofrimento das vítimas do ódio racial. Disse Weizman: ''O mundo para os judeus se divide em dois: os países onde os judeus não podem entrar, e os países onde os judeus não podem viver''.

Quando lembramos a memória de 6 milhões de judeus inocentes, que partiram com um único brado de fé - o Shema Israel, Ouve Israel - devemos estar alertas para o perigo do esquecimento, pois os caminhos para os campos de concentração foram construídos pelo ódio, mas foram pavimentados pela indiferença. Disso, nós democratas, jamais deveremos esquecer.

Indiscutivelmente, o racismo é uma moléstia crônica semelhante a um câncer. Da mesma forma, quando o sistema imunológico do ser humano tem uma queda, a doença se instala e, se não combatida radicalmente, se espalha pelo organismo. Quando o sistema ideológico de uma nação tem uma queda, o racismo e o preconceito se instalam e, se não combatidos radicalmente, se espalham e transformam a sociedade numa chaga moral, como ocorreu no regime nazista.

Passaram-se 60 anos do Holocausto e o anti-semitismo teve nova recaída, voltando a aflorar nos quatro cantos do mundo. Toda a imoralidade da perseguição aos judeus pode ser fielmente retratada nas palavras do maior líder espiritual católico desta geração, o papa João Paulo II, que em seu livro No Limiar da Esperança classifica o anti-semitismo como um crime contra a humanidade. Já o iluminado João XXIII pedia desculpas pelos crimes cometidos contra os ''irmãos mais velhos dos cristãos''.

Aqui , no Brasil , a situação também é preocupante. Saber que 77% dos brasileiros desconhecem totalmente o termo Holocausto, e que apenas 4% são corretos ao definir o significado da palavra, é uma cruel radiografia de uma malignidade a ser combatida com urgência e com a profundidade que o caso requer.

Esse maciço desconhecimento da História deve ser combatido não apenas pela comunidade judaica, mas por todas as etnias e todos os grupos que foram igualmente discriminados e trucidados pela loucura nazista, inclusive os que foram acrescentados nas listas dos atualmente discriminados. Quando perguntados sobre a perseguição de outras minorias durante a guerra, 85% dos brasileiros mostraram desconhecer totalmente esse fato. Ignoram que, além dos judeus, Testemunhas de Jeová, ciganos, homossexuais e deficientes físicos também foram vítimas selecionadas por Hitler para serem executadas pelos alemães na década de 40.

Atualmente, os herdeiros desse monstro em todo o mundo estenderam a perseguição institucional aos negros, asiáticos, africanos e imigrantes em geral. Em nosso país , os nordestinos também povoam as listas de ofensas e agressões morais que são criminosamente disseminadas nas páginas da internet pelos radicais de extrema-direita e seus fanáticos. Esse desconhecimento dos fatos transforma-se em terreno fértil para perigosas atitudes revisionistas dos que desejam agredir a verdade e macular a memória das vitimas inocentes. A mais recente atitude ofensiva dentro dessa linha de pensamento teve como origem o arcebispo metropolitano de Porto Alegre, Dom Dadeus Gring , quando publicou recente artigo em que contesta os historiadores, afirmando que os judeus mortos pelos nazistas foram menos de 1 milhão . O arcebispo Gring revela mais uma faceta de sua postura antiprogressista e de extrema direita, fartamente detectada em suas criticas aos partidos e movimentos de trabalhadores em geral. Deveria respeitar as palavras do papa João Paulo II que, em visita ao Memorial Yad Vashem , em Jerusalém , lamentou e rezou pela alma dos milhões de judeus assassinados no Holocausto, segundo suas próprias palavras. A postura do clérigo católico acima mencionado vai contra todos os construtivos avanços alcançados pelos membros do dialogo judaico-cristão do Brasil.

Ainda nas palavras do escritor e sobrevivente do Holocausto Elie Wiesel encontramos resumido o sentido da lembrança dessas tragédia: ''Não relembrar significa ficar ao lado dos verdugos contra suas vítimas; não relembrar significa assassinar as vítimas pela segunda vez; não relembrar significa tornar-se cúmplice do inimigo. Por outro lado, relembrar significa sentir compaixão pelas vítimas de todas as perseguições.''

Holocausto nunca mais !