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Bnei Anusim

Ódio Suicida

Ódio Suicida

 

Osias Wurman

Publicado em  14 de Abril de 2003 no jornal O Globo, Opinião

 

Se voltarmos nossa memória para o ano de l981, encontraremos o principal motivo para a obstinação com que Saddam Hussein promoveu e estimulou o ódio contra o Estado de Israel. Naquele ano, o primeiro-ministro de Israel era Menachem Begin, um dos fundadores do partido Likud, de Ariel Sharon, e que assinou em l979 o primeiro acordo com um país árabe vizinho — o Egito — representado por seu presidente Annuar Sadat.

 

Begin, no dia 7 de junho, determinou a destruição de um reator atômico no Iraque, de fabricação francesa, que estava prestes a ser inaugurado. O premier francês Pierre Mauroy condenou veementemente o bombardeio efetivado por oito caças israelenses.

 

O reator de Osirak foi destruído em apenas dois minutos de bombardeio. Um único cientista iraquiano foi morto no ataque. Também os Estados Unidos se opuseram ao ataque, e o presidente Ronald Reagan apoiou a resolução da ONU que condenou Israel duas semanas depois.

 

O ataque, naturalmente, representou uma tremenda humilhação para o ditador iraquiano. Para o mundo, significou a eliminação de um risco nuclear que hoje estaria ameaçando o planeta.

 

Daí vem a vontade suprema que Saddam Hussein expressou de varrer do mapa o estado de Israel. Sua principal iniciativa foi a premiação do terrorismo suicida palestino com fartas somas em dinheiro. Ainda no primeiro dia do atual ataque ao Iraque, o ditador teve a iniciativa de remeter 210 mil dólares para serem distribuídos para as 21 famílias de suicidas que explodiram idosos, mulheres, crianças, todos civis, além de soldados israelenses. Trocado em miúdos, um cheque de 10 mil dólares pela vida de cada terrorista palestino. Já no caso do motorista de táxi iraquiano que explodiu a viatura matando quatro soldados americanos, a recompensa imediata foi de 34 mil dólares e medalhas de mérito pós-mortem.

 

Nos 30 meses do atual conflito palestino-israelense, o governo do Iraque despendeu mais de 35 milhões de dólares em macabras premiações, enquanto seu povo sofre os rigores da fome e da miséria, anteriores à guerra atual.

 

Duas personagens do mundo árabe deram declarações recentes endossando as atitudes de Saddam Hussein. O primeiro foi Osama bin Laden , o terrorista das cavernas, que, numa gravação de áudio divulgada ainda antes do atual conflito, conclamava o povo iraquiano a usar a tática do suicídio em caso de invasão.

 

O outro porta-voz do ódio foi o líder do Hamas, movimento terrorista palestino sediado em Gaza — Sheik Ahmed Yassin — que recomendou aos soldados iraquianos a lição de suicídio dos palestinos.

 

Um suicida da Jihad Islâmica tentou entrar recentemente num café israelense na cidade balneária de Netania. Impedido pelos seguranças do local, explodiu-se ferindo mais de 35 pessoas. Deixou mensagem onde dedica seu ato insano ao governo do Iraque.

 

Não podemos ignorar as dezenas de manifestações, nos quatro cantos do mundo, a favor da paz e contra a invasão do Iraque. É importante notar que a solidariedade ao povo iraquiano, ou a animosidade ao governo americano, não representaram um endosso automático ao governo ditatorial de Saddam Hussein. Prezar a paz também é ser contra um governante que promoveu uma carnificina contra os curdos do norte do Iraque, usando até armas químicas que queimaram vivas mulheres e crianças inocentes. Foram milhares de mortos em apenas algumas horas.

 

Não devemos esquecer que se trata de um governante árabe que invadiu países limítrofes, lançou foguetes Scud contra outros vizinhos, matou dois genros sob alegação de intenções golpistas, etc.

 

O maior perigo, após a tomada de Bagdá pelas tropas americanas, é o desdobramento do atual conflito em escala mundial, onde os semeadores do ódio aparecem para externar seus preconceitos sórdidos e inconfessáveis.

 

Assim foi, há dias, na Mesquita Brasil de São Paulo, a mais importante do país, quando Mohamad Nassib Mourad, presidente da Sociedade Beneficente Muçulmana, proferiu um virulento discurso durante as orações de sexta-feira. Após ofender os países que invadiram o Iraque, o orador referiu-se aos judeus como “câncer da Humanidade”. Cumpre ressalvar que a maioria dos presentes, conforme noticiado pela “Folha de S. Paulo”, repudiaram as palavras racistas do agressor. Também o secretário geral da Sociedade Árabe Palestino Brasileira, Emir Mourad, mandou mensagem declarando que o orador não representa a comunidade palestina, e que a instituição que representa não está filiada à Federação de Entidades Árabe Palestino Brasileiras.

 

O incitamento ao ódio promovido pelas palavras do libanês Mohamad, ainda que descredenciadas pela entidade maior dos palestinos, será alvo de ação legal em inquérito policial que foi requerido ao Ministério Público em São Paulo pela Confederação Israelita do Brasil , por ter o infrator afrontado a Lei de Crimes Raciais – Lei 7.706 de 5 de janeiro de l989.

 

Os brasileiros de origem judaica já expressaram em diversas ocasiões o desejo ardente de continuar a viver fraternamente com seus primos árabes aqui no Brasil. Não desejam importar o conflito do Oriente Médio. Desejam, sim, continuar a ser um exemplo vivo da convivência pacífica entre povos e etnias que se respeitam mutuamente. Aqui no Brasil, não existe solo fértil para o ódio suicida que Saddam Hussein sustentou e que Osama bin Laden, Ahmed Yassin e Mohamad Nassib Mourad querem plantar e estimular.

Mestres em Caridade

 

Osias Wurman

Publicado em 13 de Dezembro de 2002 no jornal O Globo, Opinião

 

O que sobrou da grandeza do Império Romano? Onde estão os seguidores da mitologia grega? Onde vivem os herdeiros dos faraós do Egito?

 

Nós, filhos do pacto de Abraão, vivo e respeitado há mais de 3.800 anos, e há mais de 3.300 anos abraçados a um rolo de pergaminho, respondemos: presente!

 

O rolo de pergaminho é a nossa Torá, o Pentateuco, os cinco livros de Moisés. Viva até hoje e eternizada como um tesouro de moral e ética que nos foi legado como fiéis depositários para difundirmos seus preceitos básicos, como os Dez Mandamentos, por todo o mundo.

 

O judaísmo trouxe ao mundo os princípios das leis sociais como o descanso sabático, as leis que combatem o latifúndio limitando a propriedade da terra a 49 anos e o principal preceito de ajuda ao próximo, conhecido como a tzedakah — justiça, no sentido mais amplo de justiça social.

 

O maior vulto judaico da Idade Média — Maimônides — classificou a benemerência em oito níveis. O menos importante é aquele em que o doador dá a caridade, muito mais por obrigação do que por convicção. O mais alto nível de valoração da caridade é quando se ajuda um carente a arranjar um sustento como um emprego ou estabelecer-se comercialmente. Aí resgata-se a necessidade juntamente com a dignidade pessoal.

 

Aquele que não tem sustento para si ou para sua família perde o ânimo de viver. Ensinou o Lubavitcher Rebe, que foi o maior líder espiritual judaico desta geração, que quando um ser humano perde o dinheiro é como se não tivesse perdido nada, pois o dinheiro vai e volta. Quando perde a saúde é como se tivesse perdido 50% da vida, mas quando perde o ânimo é como se estivesse morto.

 

Aqui no Rio de Janeiro, as instituições pertencentes à comunidade judaica também dedicam especial atenção ao atendimento à comunidade maior. Apenas para citar uma de nossas 52 entidades, lembramos a mais antiga instituição em prol dos necessitados — o Froien Farain (Lar das Damas), que liderou campanha de fundos e jóias, ainda durante a Segunda Guerra Mundial, entregando os valores arrecadados diretamente à primeira-dama da nação, Darcy Vargas. E o trabalho continua permanente e incansável.

 

Atualmente, o Froien Farain reserva 10% dos leitos de sua casa geriátrica para idosos não judeus. É importante esclarecer que não recebe subsídios governamentais, contando apenas com recursos arrecadados junto à comunidade israelita do estado.

 

O Lar das Damas ainda ajuda o Hospital Mário Kroeff, a Casa do Hemofílico, a Casa Ronald McDonald para crianças com câncer, a Fundação São Martinho, a Associação de Apoio à Criança com Neoplasia e diversas outras instituições.

 

Se desejarmos o exemplo mais recente, podemos citar que na semana que passou a Organização Feminina Wizo-Rio participou da campanha Natal Sem Fome e suas 450 ativistas reuniram meia tonelada de alimentos que foram entregues na ONG Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e pela Vida.

 

Na próxima semana estaremos enviando roupas e alimentos não perecíveis para os desabrigados pelas chuvas em Angra dos Reis, numa iniciativa do Grupo Paskin e da Federação Israelita do Rio de Janeiro (Fierj).

 

Um dos grandes estudiosos do judaísmo, o sábio Hilel, que viveu no século I, eternizou seus ensinamentos resumidos em três definições: “Se eu não for por mim, quem será? Se eu for só por mim, quem sou eu? Se não agora, quando?”

 

Esta é a hora de estendermos, ainda mais, as nossas mãos aos necessitados. Temos que redobrar nossos esforços em prol dos carentes que, lamentavelmente, aumentam a cada dia. O flagelo da fome e da miséria invade nossas cidades, e onde não há comida não pode haver lei. A violência urbana do nosso cotidiano é fruto do abandono e da indiferença pelo sofrimento alheio.

 

Nós, brasileiros de fé judaica, daremos o exemplo de benemerência ao nosso povo brasileiro. Esta foi a resolução do Encontro Internacional Enfrentando a Pobreza a Partir da Solidariedade, realizado há dias em São Paulo e promovido pela comunidade judaica em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento. Estaremos dando um passo à frente na grande campanha nacional que se desenha pelo governo que se iniciará.

 

Os inimigos históricos do povo judeu traçaram um estereótipo judaico de milionários. Na verdade somos milionários em solidariedade humana. Somos mestres em caridade.

Ecos de Hitler

 

Osias Wurman

Publicado em 24 de Janeiro de 2003 no jornal O Globo, Opinião

 

Indiscutivelmente, o racismo é uma moléstia crônica semelhante a um câncer. Quando o sistema imunológico do ser humano tem uma queda, a doença se instala e, se não combatida radicalmente, espalha-se pelo organismo. Quando o sistema ideológico de uma nação tem uma queda, o racismo e o preconceito se instalam e, se não combatidos radicalmente, espalham-se e transformam a sociedade numa chaga moral, como na Alemanha nazista. Outra semelhança é que, após passarem por períodos de relativa remissão, voltam a ter recaídas que às vezes são fatais para o corpo humano ou para uma sociedade.

 

Em nossos dias presenciamos um perigoso renascimento do anti-semitismo numa sociedade que foi o berço do slogan “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. Na França de hoje, acumulam-se os atos de agressões e vandalismos contra a segunda maior população judaica do mundo, fora do Estado de Israel. Há poucos dias, a ousadia dos atacantes chegou à invasão de uma instituição religiosa no coração de Paris, onde o rabi Gabriel Farhi, de 34 anos, líder de movimentos pacifistas e membro do diálogo judaico-cristão, foi esfaqueado no abdômen. Sua sinagoga já havia sido incendiada em maio do ano passado. Alguns dias após ser hospitalizado para tratamento do ferimento, o rabi teve seu carro incendiado na garagem de sua residência. Um grupo de direitos humanos americano fez recentemente um alerta para que os seus cidadãos, em viagem pela França, tomem extremo cuidado após os ataques ocorridos a locais judaicos como escolas, cemitérios e sinagogas.

 

As agressões na Europa não se restringem a um país, tendo registros na Inglaterra, na Alemanha, na Áustria, na Rússia e em outros países em menor escala. Passaram-se 60 anos do Holocausto e o anti-semitismo teve nova recaída, voltando a aflorar nos quatro cantos do mundo. Toda a imoralidade da perseguição aos judeus pode ser fielmente retratada nas palavras do maior líder espiritual católico desta geração, o Papa João Paulo II, quando em seu livro “No limiar da esperança” classifica o anti-semitismo de crime contra a Humanidade. Já o iluminado João XXIII pedia desculpas pelos crimes cometidos contra os “irmãos mais velhos dos cristãos”.

 

Aqui no Brasil estamos assistindo a um perigoso desenrolar jurídico referente ao crime de racismo e ao preconceito racial. O Supremo Tribunal Federal está julgando o pedido de hábeas-corpus em favor de Siegfried Ellwanger (S. E. Castan), autor e editor de inúmeras obras difamatórias contra os judeus. Ellwanger foi julgado pela Justiça de Porto Alegre em 1996 e condenado a dois anos de reclusão com sursis — suspensão condicional da pena, com prestação de serviços comunitários por quatro anos. Tendo apelado para o Superior Tribunal de Justiça, foi derrotado em 2001. Agora alega que discriminação e anti-semitismo não são crimes raciais, pretendendo descaracterizar o delito como imprescritível e inafiançável. Supõe ele que judaísmo é religião e não raça ou etnia. Se seu próprio argumento tivesse sustentação, os 20% dos judeus que moram em Israel e são seculares não seriam judeus, pois não seguem nenhuma religião. Um verdadeiro absurdo! Não podemos esquecer que durante o regime nazista, nos anos 30 e 40, a perseguição aos judeus como raça provocou a fuga da Alemanha de Albert Einstein, pai da Teoria da Relatividade, e da Áustria de Sigmund Freud, pai da psicanálise, e de Stefan Zweig, o autor mais traduzido da Europa nos anos 30, todos rigorosamente ateus.

 

Sem dúvida, o legislador brasileiro, ao instituir a punibilidade, uniu o intuito maior de coibir qualquer ato de discriminação, seja ela racial, religiosa, de origem étnica ou de sexo.

 

Existe um preceito jurídico fundamental que determina que “ninguém pode se valer da própria torpeza em benefício próprio”. Paradoxalmente, as principais obras editadas e vendidas pela Editora Revisão, de propriedade de Ellwanger, são taxativas ao afirmar que os judeus são uma raça. Entre as monstruosidades impunemente vendidas em seu site na internet, mesmo após mais de seis anos de sua condenação original, encontram-se “Minha luta”, de Adolf Hitler, “Os protocolos dos sábios de Sião” (obra falsa produzida por encomenda da polícia secreta do czar Nicolau II ) e “Holocausto judeu ou alemão?”, do próprio Ellwanger. Ainda em seu site, Ellwanger apresenta-se como “injustiçado” pela imprensa, acusando os jornais “Zero Hora”, “Folha de S.Paulo” e “O Dia”, a revista “IstoÉ” e a Associated Press. Assim como os judeus, a imprensa livre sempre foi alvo dos tiranos, dos ditadores e dos regimes de opressão.

 

Para clarear a presente demanda no STF, tomemos a resolução 623 da Assembléia Geral da ONU de 9 de dezembro de 1998, no seu item 17: “Encoraja todos os governos a cooperarem plenamente com o relator especial, no intuito de proporcionar-lhe o cumprimento de seu mandato, incluindo o exame de incidentes das formas contemporâneas de racismos e discriminação racial, entre outras, contra negros, árabes e muçulmanos, xenofobia, negrofobia, anti-semitismo e intolerâncias correlatas.”

 

Fica, pois, a decisão da ONU de 1998 como um dos pilares de sustentação da nulidade dos argumentos ora apresentados pelo maior divulgador do anti-semitismo em nosso país, quando pretende excluir o seu crime da classificação de delito racial.

 

Qualquer benefício em favor de Siegfried Ellwanger representaria estimular a difusão do ódio doentio aos brasileiros de origem judaica e, por similaridade, a todas as minorias que compõem o harmonioso caleidoscópio da sociedade brasileira. Seria uma afronta a negros, nordestinos, islâmicos, estrangeiros, homossexuais, mulheres, deficientes físicos, Testemunhas de Jeová etc.

 

Seria como fazer ouvir os ecos de Hitler!

Chore por nós, Argentina!

 

Osias Wurman

Publicado em  28 de Julho de 2003 no jornal O Globo, Opinião

 

Sábio o ensinamento judaico que recomenda aos seres humanos a oração para que nunca tenham que sofrer tudo o que estão habilitados a suportar.

 

O exemplo prático destas palavras é vivido pelos parentes das vítimas do mais horrível atentado contra civis da história na Argentina: a explosão da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia) em julho de l994, que matou 85 argentinos de origem judia e feriu cerca de 300, muitos não judeus. Após a explosão, provocada por um motorista suicida que lançou sua caminhonete cheia de explosivos contra o edifício situado na Rua Pasteur, o prédio da instituição israelita ruiu e os vizinhos tiveram vidros quebrados e trincas estruturais. Decorridos nove anos da tragédia, os parentes ainda clamam por justiça para que possam considerar sepultados seus mortos. Passaram-se os anos, mas permanecem o luto e a dor provocados por tamanha brutalidade.

 

Hoje, sabe-se que esta investida foi parte de uma trama internacional antijudaica que contou com a participação ou apoio logístico de membros da embaixada iraniana em Buenos Aires e integrantes do grupo radical Hezbollah, sediado no Líbano, que teria enviado o suicida. Também membros da Side, a Secretaria de Inteligência do Estado, estiveram envolvidos no encobrimento do grupo terrorista e até hoje encontram-se protegidos pela lei que os proíbe de depor, sob a alegação de proteger segredos de Estado. Na verdade, estão protegendo uma vergonhosa impunidade, que deveria ter sido derrubada junto com a ditadura argentina, nos idos de l983.

 

A motivação para esse abominável ato de covardia e terror foi um misto de indiferença e conivência por omissão das autoridades a outro atentado realizado pelos mesmos mentores, em l992, contra a embaixada de Israel em Buenos Aires, em que foram mortas 29 pessoas e 252 ficaram feridas. Também nesse caso, nenhum culpado foi sentenciado até hoje.

 

Debita-se este estado de conivência oficial a vários governantes, com destaque para o ex-presidente Carlos Menem, um ferrenho peronista que manteve os deploráveis hábitos anti-semitas de seu ídolo populista. Nos idos dos anos 40, a mulher do ditador Juan Pablo Perón, Evita, foi intermediária na compra de 30 mil passaportes falsos que serviram para a fuga de criminosos de guerra nazistas, sendo 20 mil para a Argentina e o restante para o Chile. Em troca deste “serviço”, o ditador e sua mulher teriam recebido US$ 200 milhões depositados em bancos suíços pela organização Odessa, criada para proteger os carrascos nazistas após a derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

 

Vale lembrar os inúmeros sinais da presença nazista na Argentina desde maio de l960, quando Adolph Eichmann, o responsável pela agilização do transporte de judeus de todos os países ocupados pelos nazistas na Europa para os campos de concentração, foi seqüestrado da Argentina por agentes israelenses e julgado com a pena de morte em Jerusalém, até recentemente, quando em l994 foi descoberto Erich Priebke, aos 82 anos de idade e gozando de prestígio na cidade paradisíaca de Bariloche, participante do massacre nazista na Itália conhecido como “Fossas Ardeatinas”, quando foram mortos 335 homens e meninos nas cavernas próximas da Via Appia, em Roma, para vingar a morte de 33 nazistas num atentado da resistência italiana. Conhecido seu paradeiro, foi extraditado para a Itália a pedido do governo.

 

Agora, a cortina de fumaça oficial encobre os autores dos atentados acima mencionados.

 

O antijudaísmo peronista é uma marca tão flagrante como a catimba futebolística dos argentinos. Os judeus argentinos somavam 500 mil pessoas há duas décadas. Atualmente são menos de 250 mil, que resistem ao clima de preconceito e indiferença dos governantes.

 

A mais recente ignomínia discriminatória vem de Julio Grondona, o cartola há mais de 25 anos presidente da Associação de Futebol Argentina (AFA). Grondona afirmou, há poucos dias, que não acreditava que um judeu pudesse ser árbitro de futebol da primeira categoria, pois é muito difícil e eles (os judeus) nunca buscam o difícil (sic). Este monstro racista deveria ser “condenado” a visitar o Estado de Israel. Lá encontrará 280 kibutzim — as propriedades rurais coletivas — onde ainda em nossos dias é praticada a forma mais socialista e igualitária de árduo trabalho. Muitos dos kibutzim têm entre seus membros imigrantes sul-americanos, com destaque para os argentinos, saídos de sua terra natal por serem alvo de agressões físicas e morais promovidas ao longo da ditadura, pelos governos peronistas ou por desqualificados racistas. Outros vindos de países onde eram perseguidos como judeus praticantes, a exemplo da antiga União Soviética. Todos, porém, trabalham arduamente para plantar e reconstruir a Terra de Israel para o povo de Israel. Transformaram um deserto num verdejante jardim. Transformaram as injúrias e calúnias da propaganda nazista em mentira. Esta seria a pena moral desejável a Grondona. A pena legal será proferida pelo Juizado Federal onde está sendo processado pela Daia, a Confederação Israelita da Argentina.

 

O Brasil poderia servir de exemplo para a Argentina do recém-empossado Kirchner, aliás uma esperança de novos dias para a democracia e a moral política no país vizinho. Aqui temos a comemorar o placar parcial do julgamento do hábeas-corpus pedido pelo nazi-brasileiro Siegfried Ellwanger, ora tramitando no STF, onde o voto do relator não foi seguido pelos sete ministros que emanaram o voto em seguida e, por ora, as liberdades democráticas e os direitos das minorias vencem de 7 x 1 pela denegação do pedido do dono da editora Revisão, especializada em publicações de cunho racista. Restam três ministros a votar, o que deve acontecer no mês de agosto. Será uma decisão com repercussão internacional, pois criará jurisprudência a favor da imprescritibilidade e inafiançabilidade dos crimes de discriminação contra qualquer cidadão, independentemente de cor, religião, origem, etnia e opção sexual. O conceito de crime racial apenas contra negros, brancos ou amarelos foi devidamente ampliado pelos recentes achados do projeto Genoma, que passa a definir a existência de apenas uma raça: a raça humana!

 

Enquanto aguardamos que se faça justiça nos dois atentados na Argentina, ouvimos em nosso imaginário o brado das 114 vítimas inocentes que clamam dos céus: Chore por nós, Argentina!