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Bnei Anusim

Memoria


Revitalização do judaísmo português

 

Os judeus portugueses estão eufóricos, neste começo do século XXI. O centenário da Sinagoga de Lisboa, oficialmente chamada Shaaré Tikvá (Portas da Esperança), tornou-se um marco para a comunidade judaica não só da capital, mas de todo Portugal, servindo como mola propulsora para a concretização de antigos anseios.

 

Memória



Na capital pernambucana, sob o domínio holandês, os judeus puderam desenvolver uma próspera comunidade. Lá, também edificaram a primeira sinagoga das Américas
Texto: Celso Sávio
Fotos: José Augusto Cíndio

Um abrigo no Recife



O capitão-mor Gaspar da Gama ou Gaspar Lemos (os registros são imprecisos), integrante da frota de Cabral, foi provavelmente o primeiro cidadão judeu (de origem polonesa) a pisar em terras brasileiras. Vieram outros, mais tarde; a maioria deles fugia da perseguição religiosa na Europa. Chegavam para formar uma grande comunidade no Brasil-Colônia, principalmente em Pernambuco, primeiro, sob o domínio português; depois, o espanhol; e mais tarde, o holandês, de João Maurício de Nassau. Foi nessa administração, na primeira metade do século 17, que eles puderam radicar-se e prosperar, trabalhando no comércio, na indústria da cana e, esporadicamente, na agricultura. Na Cidade Maurícia (atual Recife), dos tolerantes holandeses, os judeus edificaram a primeira sinagoga das Américas, que chamaram Kahal Zur Israel. A construção ficava na antiga Rua dos Judeus, denominação que persistiu de 1636 a 1654, quando passou a ser conhecida como Rua do Bom Jesus, zona portuária de Recife.

A capitulação dos holandeses, diante dos portugueses, em 27 de janeiro de 1654, representou um terrível golpe para a comunidade. De novo sob o domínio português, os judeus tiveram três meses para se desfazer de seus bens e retornar à Europa, a maioria rumo aos Países Baixos. Vários navios deixaram o Brasil com destino a Amsterdã, na Holanda, entre eles o Valk, que levava um grupo de 23 expatriados. Capturados em alto-mar por piratas espanhóis e levados para a Jamaica, eles foram libertados pouco depois e conduzidos no navio francês Saint Catherine para a América do Norte. Desembarcaram num lugarejo, na época com apenas 1.500 habitantes, o qual denominaram Nova Amsterdã, hoje Nova York. Além de terem fundado a primeira comunidade judaica norte-mericana, eles ajudaram a construir aquela que atualmente é a principal metrópole mundial.

Piscina ritual
Escavações feitas pela prefeitura de Recife, em 1999, ajudaram a encontrar um muro na Rua do Bom Jesus, além de cerâmicas, pratos e utensílios usados pelos judeus. Ao ser anunciado o achado, um tribunal de rabinos do Brasil e da Argentina confirmou a descoberta do Mikvê, uma espécie de piscina usada em rituais de purificação. A descoberta da peça foi fundamental para comprovação da sinagoga Kahal Zur Israel. Outro dado importante está no relato do escrivão Francisco Mesquita, que fez o inventário dos prédios edificados ou reparados pelos holandeses até o ano de 1654. Nele constava a descrição da primeira Sinagoga das Américas.

Para chegar, com exatidão, à configuração interna do prédio e localizar suas dependências foram removidas, durante as escavações, 750 toneladas de terra e mais de mil metros quadrados de reboco. O trabalho revelou que existiam no local oito níveis diferentes de piso em decorrência dos sucessivos aterros feitos para o assentamento da cidade. O prédio, ora restaurado, mantém as mesmas linhas arquitetônicas da época. No local, funciona também o Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, sob a direção administrativa de Beatriz Schvartz. Apesar de todos os levantamentos em registros de cartórios de Recife, não se pode precisar a data em que a sinagoga, hoje denominada Kahal Zur Israel - Congregação Rochedo de Israel, começou a funcionar. Sabe-se apenas que ela foi construída na primeira metade do século 17, durante o governo de Nassau.


Transferência
Após a expulsão dos holandeses, os prédios judeus, inclusive a sinagoga, foram doados ao português João Fernandes Vieira que, 20 anos depois, os transferiu à Congregação do Oratório de São Felipe de Néri, em 1679. Quando essa ordem foi extinta, em 1821, os prédios passaram para o patrimônio do Colégio dos Órfãos e, posteriormente, à Santa Casa de Misericórdia do Recife até o tombamento pelo Instituto Brasileiro do Patrimônio Histórico.

À época da construção, a sinagoga possuía um andar térreo com duas salas de aula para as crianças, o Mikvê e um poço original do século 17. O andar superior era destinado às celebrações. Atualmente, encontramos no piso inferior, logo à entrada, o Museu Judaico; o Mikvê e o poço original, ambos recuperados.O andar superior abriga o que seria de maior orgulho dos judeus residentes no Recife. A réplica do templo é toda formada pelo salão da sinagoga.

O Bimá está situado nos fundos do salão. É um tipo de cercado de balaústres, onde fica o rabino e se inicia a cerimônia. No outro extremo do salão, está o Heichal ou Aron, Há-Kodesh a Arca Sagrada, um móvel em madeira protegido por uma cortina de parochet. Os visitantes também encontram lá duas dependências do arquivo histórico destinadas a exposições, home theater e documentação.

De volta à "Terra Prometida"
O êxodo do povo judeu, desde o Oriente Médio, estendeu-se por toda a Europa e pelos Países Baixos. Enquanto a Espanha, em 1492, com apoio da Inquisição, expulsava seus judeus; em Portugal, em 1499, os poucos integrantes da comunidade eram obrigados a professar a fé cristã. Sob o codinome de cristãos-novos, eles ainda eram impedidos de emigrar, com a alegação de que se o fizessem estariam desmantelando ainda mais a frágil situação financeira e comercial do país à época.

No Brasil, a presença judaica remonta ao capitão-mor Gaspar Lemos (ou Gama), integrante da esquadra de Cabral e muito prestigiado pelo rei de Portugal, D. Manuel. De volta a Portugal, ele relatou a seus pares as maravilhas do que imaginou ser a "Terra Prometida" dos hebreus. A notícia ajudou a atrair novos judeus para a colônia, entre eles, Fernando de Noronha, o primeiro arrendatário de terras no Brasil, que até virou nome de um arquipélago da costa brasileira. Eles viveram tranqüilos até 1540, quando foi promulgado, em Lisboa, o 1º Auto-de-Fé, extensivo à colônia, onde também passaram a ser perseguidos.

O domínio holandês em Pernambuco favoreceu a expansão da comunidade judaica local, mas só até 1654, quando a situação voltou ao controle português. Muitos foram deportados, alguns continuaram a viver no Brasil, como cristãos-novos, outros vieram até o começo do século 20. Nessa época, segundo Beatriz Schvartz, diretora administrativa do Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco, já havia no País a primeira geração, considerada de transição, de judeus brasileiros.